segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Significado

Tão forte quanto a canção que sempre esteve em mim, mas que só ouvi pelos ouvidos recentemente (Pois antes ouvia com o coração), assim é o significado.

Sim, mas significado do quê? Eu poderia dizer, bregamente, Significado da Vida. Mas seria realmente muito piegas.

O que eu quero dizer é mais profundo que essa frase de livro de auto-ajuda manjado.

Falo de seu significado, o significado de você.

O que você significa? O que diz você? A que veio? Qual seu porquê?

Explicar, ou tentar entender, é algo que escapa de meu poder tal qual as manhãs. Não pode ser detido como o sabor da última colherada do doce. Você pode até comprar mais, mas aquela será sempre a última.

Significado é rir e chorar. Está na ponta da língua e minha memória se recusa a lembrar.

Significado, como significante. É uma sensação, algo que só parece.

Era algo que eu queria dizer e esqueci há dois minutos.

Significa defender o ecossistema ou ser fanático por futebol.

Qual o significado do significado? Uma lágrima para quem chora. Um sorriso para quem se alegra.


Poderia, talvez, dizer que é a certeza da mais absoluta dúvida. Ou talvez a convicção de não ser amado e deixar-se ouvir uma canção triste.

Uma vontade não realizada. Um desejo atendido desabridamente incontáveis vezes. Abuso.

Colherada de arroz-de-leite? Saudade de mamãe e a comprovação que ela estava certa, que ela sempre esteve certa.

Um não-sei-quê de desejo de morrer e não ter quem chore por você. É aflição de fim de jogo. É agonia de fim de festa.

É ruim. Mas às vezes, sob um sol de rachar, num dia de céu limpo, é bom. Outras vezes, num dia de chuva, os pingos caindo lentos.

Um rosário e todas as suas ave-marias.


É aplacamento, vontade de dormir e desejo de amar.

São os signos desses insignificantes significados.

O que significa você para você? Não a palavra, a pessoa.



Bom, deixa pra lá.



De qualquer forma: FELIZ NATAL!

AXB

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Carlos Vasconcelos com Tomás Acioly

Há algo na Carlos Vasconcelos com Tomás Acioly. Não é algo que me assusta, não. Antes de tudo, me intriga.

Existe alguma coisa no cruzamento dessas ruas - para ser preciso é mais pra cá da Carlos Vasconcelos - que me faz recordar o que vivi que sei que não vivi.

Não é o cinza dos prédios, nem o azul do céu. Não acompanha as duas mulheres que caminham de mãos dadas a uma criança. Nem está no Honda Civic negro que desliza pela via. Muito menos nos cartazes de oferta de emprego para revendedores da Nestlé.

Não está caído ali como as cascas dos cocos.

Sentado no meu apartamento, saboreando uma cajuína São Geraldo que mandei trazer do Juazeiro do Norte; penso, penso e não descubro o que é que há na Carlos Vasconcelos com Tomás Acioly.

Uma presença? Uma ausência? Uma marca? O olor de um planta alucinógena?

Mas são somente mais duas ruas como quaisquer outras. Com seu asfalto irregular, seus paralelepípedos, calçadas altas, calçadas baixas. Fachadas e alguns azulejos. Pessoas, entrever de salas e arranjos nos jardins.

Mas há uma fragrância que não é dali e que me transporta ao brejo da minha infância, beira de rios, uma manhã na montanha.

Qualquer coisa como se aquele lugar não fosse ali, mas diversos outros. Longe dali.

O que há ali que me faz sentir tão bem? Que reduz a implacabilidade do fulgor solar?


O que há na Carlos Vasconcelos com Tomás Acioly que traz consigo a felicidade do sonhar?



AXB

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Raiva, Raiva

Minha ira consumirá o mundo em chamas, todos os livros, todas as belas obras e os amantes enamorados.

Todos os pneus dos carros, eixos e virabrequins sucumbirão, ante o fogo de minha ira.

Raiva, raiva: é o que sinto. Raiva persiste em meu instinto.

Enraivecem-me os pingos d'água na pia. A nulidade, a perplexidade, a compactuação e a inércia.

Minha ira é a espontaneidade numa noite de céus limpos.

Minha ira é a dos bêbados cruéis, da malignidade e das pontas das facas.

Minha ira é ignorância, desconhecimento e futilidade.

Estou puto da vida, de raiva vidrado, mordido, tinindo.

Dentearia um cão que me irritasse, surraria o ladrão besta que viesse a ter comigo. Desmiolaria ainda mais o desmiolado que surtasse de me enervar.

Impacienta-me a frescura, a brandura com os vis e uma nesga de bolor gris
em minhas botas.

Exaspera-me a falta de rimas, o aparelho de som do vizinho e o seu provinciano balançar de rede.

Encoleriza-me ser colérico, fechada no trânsito, terminologias complicadas e regras de direito.

Odeio tudo, odeio o mundo. Odeio sobretudo odiar.

Ódio é o preço da tristeza, sinônimo da pobreza
de alma, falta de calma, de nada que me acalma.
Erros de português, afetação de inglês e sapato chinês.

E a merda deste texto...

que me dá raiva, raiva.




AXB

sábado, 5 de dezembro de 2009

Parte II de Indagações

Será que eu estou errado em pensar desse jeito? Que somos responsáveis, profunda e inescusavelmente responsáveis, por cada ato nosso, mesmo o menor deles, como jogar a embalagem de um bombom no chão da rua? Porque eu sei que somos. E sei as consequências desses atos, a gravidade deles, mesmo num menor e ínfimo grau de uma ação impensada e inocente.

Será que o Kleicy tem razão absoluta e a felicidade se resuma a casar, viajar pelo mundo duas vezes ao ano, ter filhos, criar esses pestinhas, impor-lhes algum senso de responsabilidade e o bom caráter da família, comprar um carro mais caro depois, conseguir um emprego melhor depois, e comprar um casa maior depois e... e depois?

Sei que no ritmo enlouquecedor do trabalho, da dedicação profissional, da luta do dia-a-dia, essas questões talvez nem surjam! Porque não há tempo para pensar nelas, porque estamos ocupados, sei lá, preocupados com as próximas eleições, com os impostos, a queda no preço do boi, etc.

Mas, então por que me surgem, e rugem, com tanta frequência e urgência? Será que só eu tenho tempo para pensar isso? Será que a velocidade do meu pensamento é maior que a de todos os outros seres viventes? Será que o fato de não usar barba comprida e não ter um ar de intelectual revoltado mina minha credibilidade como ser pensante vivendo no seio da sociedade? Por que estas verdades me são tão óbvias e claras, com uma cristalinidade tão grande a pender diante de meus olhos?

Eu adoro a simplicidade da vida. Mas isso não se confunde com inocuidade. A vida não pode ser inócua, nem insípida. A vida é bela. Bela posto que é simples, mas essa simplicidade possui infinitas camadas de complexidade que a tornam absurdamente mais bela! Infinitamente mais rica.

Por que deveríamos empobrecê-la com mundanidades tais quais simples “bens materiais”. Aquele carro preto que tanta saudade lhe traz... essa saudade não é do objeto, porque pra você era quase um ser vivo, um amigo... essa saudade nasceu dos bons momentos e das ótimas lembranças que você tem do... carro.

Percebe o cerne da questão? O que te restou não foi o para-choque do carro, foi a lembrança, foi a alegria de usufruir, foram os sentimentos com os quais você cobriu aquela matéria. Entende o que eu digo? Poderia até ser uma pedra no meio do caminho, um galho de árvores, uma pétala de uma flor, um tropeço que um amigo deu na calçada e isso te deixar feliz só de recordar.

A matéria reflete os sentimento que você se dignou, se obrigou, ou simplesmente quis insuflar nela. Então porque não insuflarmos, não inserirmos, esse sentimento em nós mesmos? Porque aí você pode até andar a pé, de ônibus, de moto-taxi, ou até mesmo bicicleta, que será integralmente feliz, pelo simples fato de querer ser.

O guarda-roupa é meu. A geladeira também. Estou pagando. Até o cesto de roupas sujas é meu. Ganhei de presente de minha mãe. Poderiam ser maiores, poderiam ser melhores, mais caros, ter mais status, quem sabe. Poderiam, sim. E mesmo que o fossem, continuariam sendo meus. E a perda não reteria dois minutos de meu tempo, não me causaria muita tristeza, não acabaria com meu dia. Porque são só objetos. E objetos não são nada. Eles me surpreendem por ainda existirem a cada manhã.

E olha que tenho muito apego às minhas lentes de contato, que eu ponho nos olhos de manhã para poder ver toda a beleza do mundo, montar na bicicleta e rodar pela cidade com maior propriedade sobre a vida que se fosse de carro.

Pelo menos é o que sei. E acredito nisso com absoluto fervor, tanto quanto acredito que são as indagações que fazem o mundo e as pessoas evoluírem e não as respostas.


AXB

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Paciente Espera

Eu espero o dia em que as pessoas serão mais sábias e justas. Espero tanto que nem posso mais para ver o dia em que as pessoas farão as coisas certas sem que sejam mandadas a isso, ainda que seja a atitude mais difícil e trabalhosa, simplesmente por ser a forma correta de agir.

Eu aguardo o dia em que a história perfeita surgirá em minha mente e anseio pelos dias seguintes de labuta para dar corpo ao livro que tocará o coração das pessoas, como toda obra prima de um verdadeiro artista.

Eu espero açodadamente juntar dinheiro suficiente para comprar o apartamento que quero, aqui, bem no coração desta capital.

Eu espero uma manhã de chuva na maravilhosa indolência de uma rede na varanda. Eu espero a paz completa entre meu coração e minha razão.

Eu espero ansiosamente o dia em que ela virá, quando então comprarei um Fox prata, “carro de mulher”, como eu tanto digo e repito, “carro lindo” como ela encerra a conversa. Nele eu colocarei um suporte para as nossas duas bicicletas.

Eu espero vê-la pedalando, olhando-me a sorrir, seu sorriso lindo, os cabelos negros acariciados pelo vento.

Eu espero tudo, sobretudo esperar sem desesperançar.

Você pode se perguntar: que vida é essa? Só esperar?


Não é uma vida de espera. É uma vida de “esperança”.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Guarda

Eu tenho me mantido em guarda por muito tempo. Defensas erguidas, olhos de prontidão. Isso cansa muito, sabe? Vigiar os próprios passos e depois, meio que apagar suas pegadas.

Não tenho me permitido um instante de folga, como se estivesse sendo perseguido numa floresta, o que se tornou um hábito fatigante.

Agora, como pode querer que eu me abra pra você? Por que, moça, eu deveria confiar mais em você que nas outras que passaram em meus caminhos? Meu coração é fechado a suas súplicas e minha pele pode blindar qualquer toque.

Meu instinto é claro, qualquer suspeita de perigo e eu levanto acampamento.

Eu observo e atento. Vigio e estou a me precaver. Ouço e duvido. E agora você vem dizendo que é diferente... com um olhar tão suplicante e sincero que faz minha vontade vacilar.

Eu queria tanto descansar. A espada pesa no braço. A armadura fatiga meu corpo e reprime meus movimentos.

No começo não era assim. Não era necessário ir à luta, nem se defender com unhas e dentes. Mas aí a guerra te engolfa... cruel, dolorosa. Depois você se acostuma. Logo em seguida você já nem sente quando se machuca. Mais um pouco e você nem se fere mais.

Aí já não tem graça nenhuma.

A armadura pesa. Meu corpo implora por descanso. Mas como fazer se depois de tanto tempo, as atas da armadura se transformaram em meus tendões?

Nesta batalha de amor, você pode me vencer pelo cansaço. Mas eu, também, depois de saciado vou embora. E quem chora sou eu. E você.


AXB

Indagações

Estou lendo um livro em que o autor me pergunta o que é real, o que é a verdade. Eu ergo os olhos e, instantaneamente, outra indagação me ocorre: esses móveis que ocupam tanto espaço no apartamento são meus? São realmente meus, ou eu pertenço a eles?

Eu vejo o guarda-roupa de portas escancaradas, o armário da comida, a geladeira, o ventilador, até a cama e o isopor; e penso se eu posso mesmo me levantar da cadeira, deixar o notebook ligado e sair por aí, livre.

O Kleicy não entende essas minha indagações. Eu tendo a acreditar que ele raciocina assim porque o verme do capitalismo se entranhou em sua mente durante anos de opressão e propagandas bonitas da coca-cola.

Em contrapartida, creio que ele pensa que sou um projeto mal-acabado, ou mal-ajambrado, de hippie. Ou simplesmente um insatisfeito, um argumentador, um provocador. Ou que eu pense não ter nada melhor para fazer.

Devo dizer: acredito que ambos estamos certos. Eu não tenho nada melhor para fazer. Talvez devesse mesmo estar brindando, com um café expresso recém preparado na recém comprada e moderníssima cafeteira elétrica, à maravilha da evolução tecnológica, ou à vitória econômica brasileira ou ao coroamento de meu sucesso como profissional sério e engravatado.

Já eu creio que há algo profundamente errado. Errado porque está tudo certo. Tudo bonitinho demais e no seu devido lugarzinho. Inclusive os sorrisos falsos. Para conferir isso, você só precisa ver a vontade que as crianças têm de sair das festas chatas, voltar para casa e jogar Play Station III™ que papai acabou de trazer dos Estados Unidos.

Nossos costumes estão matando a terra, mas nem nos importamos, já que o conforto é tudo o que importa. Quero ver conforto quando estivermos morrendo, ou condenarmos nossos netos a viver num mundo árido e poluído. Neste momento, pessoas estão morrendo de fome, estão no tenebroso findar de suas existência porque não têm o que comer. Definhando lentamente, apenas pele, ossos e desespero. E não é só lá na África, é aqui na rua da sua cidade, entre o normalíssimo caos do trânsito e o corre-corre das compras, em meio à pobreza, loucura e sofrimento.

E eu posso dizer com certeza que todos esses malogros, que todos esses meus arrependimentos pela raça humana, advêm de nossa ganância, do consumismo, de permitirmos a superficialidade de nossas existências e a letargia de nosso pensamento.

Nós estamos dopados. O mundo estava dopado antes de Buda alcançar o Nirvana. O mundo estava dopado antes de Cristo ser mandado à Terra por Deus, Nosso Pai. O mundo estava dopado antes da Revelação de Alá à Maomé. Quiçá, o único povo que não estava dopado eram os Israelitas, porque estavam com as costas contra a parede e os dois pés enfiados na barriga do mundo, lutando por sua sobrevivência. Mas até aí sucedem maus hábitos: o de ficar eternamente de guarda, com medo, esperando o golpe.

Deixando os judeus e voltando aos não circuncidados brasileiros: E então? O dinheiro é mesmo seu? Ou há um cérebro maligno controlando você de dentro do bolso da carteira? Certa vez li uma frase: “Sempre é bom pegar algumas notas de dinheiro, olhar fixamente para elas e dizer quem é dono de quem”.

domingo, 22 de novembro de 2009

Tempo Perdido

Marina Suzuki é uma estudante de medicina de 27 anos de idade. Pelo menos é isso, entre outras coisas, que sabe sobre si mesma quando ela se recolhe para dormir na noite de 22 de novembro de 2009.

Ela não sabe, mas acordará no dia 23 de novembro de 2029. Como de fato aconteceu. Ergueu-se da cama de solteira, que ela não percebeu agora tratar-se de uma enorme cama queen size. Abriu a torneira da pia do banheiro, que ela mal viu. E só quando ergueu os olhos para o enorme espelho que encimava a pia de mármore, percebeu, com um susto que tomou seu fôlego e quase a matou, que seu rosto envelhecera vinte anos numa só noite.

Ainda atordoada, ela começou a reparar no quarto gigantesco, no enorme closet e as incontáveis roupas belas e, aparentemente, caríssimas; além dos móveis de extremo bom gosto que guarneciam o suntuoso quarto.

Deu um pulo quando a empregada entrou de chofre no aposento, avisou que o café estava pronto e perguntou se ela desejava fazer a refeição ali mesmo. Dorinha, o nome da moça que já trabalhava há cinco anos com a poderosa Dra. Suzuki, estranhou quando a senhora perguntou seu nome e o que fazia ali. “Esse povo que estuda demais e mexe com os miolos dos outros é meio doido".

Só algum tempo depois foi que ela descobriu, pelo jornal em cima do criado-mudo, e por isso se sentiu como num pesadelo, ou num filme de terror de roteiro barato, que duas décadas passaram sem que ela se lembrasse.

O celular, que pelo visto era o seu, era tão sofisticado que ela passou algum tempo até descobrir como atender. Era sua secretária. “Bom dia, Dra. Suzuki. Sua reunião com o Grupo MedSilver é hoje às nove. Há a consulta do Dr. Campos de Medeiros da Medeiros International Holdings às dez.” E saiu passando toda a lista de “seus” compromissos até que, por volta das quatro da tarde, Marina descobriu que teria de participar do ensaio para o casamento de Larissa.

“Larissa Facó? Minha amiga está casando? Com quem?”. E ouviu a seguinte resposta: “Larissa Suzuki Zenault, sua filha. Não está lembrada, Dra.?”.

Esse foi o baque maior. Saber que também tinha outro filho, o mais velho, Aaron, não chegou nem aos pés.

“Uma filha, meu Deus, e está casando! Preciso de ajuda para entender esse... esse pesadelo.”.

Por sorte, achou o telefone de sua amiga “Larissa Facó”.

Foi atendida com uma certa frieza, o que estranhou.

- La, eu preciso de você. - A outra se sobressaltou:
- Co-como? Deve precisar mesmo, porque faz mais de quinze anos que você não me chama assim.

A antiga amiga resumiu sua situação e ouviu a outra mandar à secretária cancelar todos os compromissos do dia.

“Devo estar louca por acreditar nisso” - disse quando chegou.

“La, por favor, me conta o que aconteceu, acho que estou enlouquecendo!”

Diante do tom de voz de Marina, Larissa acreditou.

“Você escolheu ser neurologista, foi perto do fim do curso. Nunca entendi o porquê. Trabalhou muito, ralou bastante e estudava como nunca antes. E olha que você estudava pra caramba. Depois começou a fazer nome a ganhar muito dinheiro. Foi nessa época que nos afastamos.”.

“Nós, o quê?”

“Você começou a ficar muito metida. Nós nos desentendemos e... você não lembra nem disso?”

“Não. Continua.”

“Bom, pelo que eu soube, sua mãe morreu há três anos de câncer. E seu pai está internado numa clínica de repouso, que é um nome muito chique para asilo, ficou completamente esclerosado”.

Marina precisou de um tempo para absorver aquela notícia. Não estava gostando de quem havia se tornado.

“E... meus filhos? Eu tenho dois, você sabia?”

“Sei – disse a antiga amiga sorrindo – você a nomeou em minha homenagem e me pediu para ser madrinha de batismo, junto com o Guilherme.”

“Você se casou com o Guilherme?” - a crise de riso foi tão forte, que ela praticamente esqueceu onde estava.

“É – riu Larissa – lembrando bem...”

“Mas vocês viviam como cão e gato! E hoje?”

“Pois é, o tempo passou, ele se tornou um marido maravilhoso e um ótimo pai.”

“ Você teve filhos?”

“Sim, dois homens”.

“E eu, um casal. - após um momento, o sorriso se apagou de seu rosto – acho que estou louca, não lembro de nada disso. No entanto, meu rosto está aqui para que eu veja a verdade”.

Após um instante de silêncio, perguntou: “Mas... quem é o pai dos meus filhos. E onde está ele?”

“Ah, minha amiga, essa é a resposta mais complicada. Se você só se lembra da noite de 22 de novembro de 2009, então sabe que estava namorando o Alexandre, não?”.

“Sim, o que houve?”.

“Você se casou com ele”.

“Casei?” - E um sorriso enorme nasceu em seu rosto. “E onde ele está?”.

“Vocês se separaram há uns dez anos”.

O sorriso sumiu.

“Por quê?”

“Dentre outras coisas: o seu trabalho. Você estava tão obcecada que esqueceu até das crianças que foram morar com ele após a separação”.

Ela se levantou, caminhou até a varanda e apoiou as mãos no parapeito de granito.

“Meu Deus, eu sou uma pessoa horrível!”

“Bem, os meninos te perdoaram, de qualquer forma. O Alexandre é um pai excepcional e conseguiu desempenhar o papel de mãe também, enquanto você estava fora do país, fazendo mestrado, pós-doutorado, dando palestras, etc.”.

Marina se sentia completamente derrotada. Ainda conseguiu fazer algumas perguntas, mas sob a condição que seria examinada pela amiga.

Antes de Larissa sair, ela perguntou, por fim: “Como foi que Alexandre me pediu em casamento?”

“Ele fechou um clube na beira-mar, acendeu mil velas e enfeitou o lugar todo, cobriu o chão da praia com pétalas de flores e, com um joelho fincado no chão, abriu uma caixa com as alianças mais lindas que você havia visto na vida e perguntou se você queria passar o resto da vida a seu lado. Pelo menos foi assim que você me disse à época.”

“E eu disse sim” - ela sorriu.

“Quem não diria?”.

Mais tarde, no ensaio do casamento, depois de todos os exaustivos compromissos do dia, em que ela aparentemente sabia tudo o que se pode saber sobre sistema nervoso, embora não gostasse muito dessa matéria na faculdade, a filha, que era realmente a sua cara, pulou em seu pescoço. O noivo era um rapaz muito bonito e que parecia ser uma ótima pessoa.

Todos estranharam as lágrimas de alegria e os abraços apertados. Principalmente Aaron, seu filho primogênito.

“A última vez que vi mamãe tão solta assim, eu devia ter uns oito ou nove anos de idade.”

Então o pai da noiva chegou. O bom e velho Alexandre Zenault. Deu um abraço apertado na filha e outro no futuro genro.

“Ele não mudou nada. Continua abraçando as pessoas como se fosse a última vez na vida”.

Depois de cumprimentar a todos, finalmente seus olhos encontraram a figura de Marina. Ele foi caminhando lentamente até ela. Com aquele seu passou lento e estudado, o charme transbordando de seus gestos. Tão elegante quanto da última vez.

Seu cabelo estava todo grisalho, tinha uma ou duas rugas de expressão e um olhar seguro.

Estendeu a mão e disse: “Olá, Marina, como vai?”

Ela se desvencilhou de sua mão e o abraçou. Era o mesmo abraço de vinte anos antes. Para ela parecia realmente que se passaram vinte anos.

Mas ele lembrava daquele abraço. Ele lembrava. No começo estranhou, quis repeli-la. Mas ela estava chorando, soluçando, realmente, em seu peito.

Deu-lhe um nó na gargante. “Tanta coisa acumulada no tempo, sabe?” - ele pensou. E retribuiu com aquele abraço apertado, também em lágrimas.

“Você me perdoa?” - ela perguntou baixinho.

Ele só conseguiu balançar a cabeça.

“Você não casou novamente, não foi?”

“Não”.

Então ela se aninhou em seu peito como se ali fosse o lugar mais seguro do mundo.

“Eu estou dizendo, mamãe está muito estranha...” - disse Aaron para a irmã que chorava de alegria vendo os pais abraçados.


Quando Marina acordou, vinte anos antes, com a cabeça latejando e o mundo rodando a seu redor feito um carrosel; jurou de pés juntos:

“Nunca mais, nunca mais eu bebo conhaque de alcatrão!”.



FIM

domingo, 15 de novembro de 2009

Calçada Vermelha

Depois da curva, numa rua de calçamento, eu pisei pela primeira vez na calçada vermelha. Um ramo de um pimenteiro jazia no meio do passeio. Lembrei dos inimigos esquecidos e dos amigos distantes.

No meio da calçada vermelha, de uma rua de pedra lavrada, eu parei e pensei na vida e na morte e no tempo e nas coisas do mundo.

Naquela calçada vermelha, sob o céu azulino das plagas iracemanas, após uma vereda de chão carmesim das flores caídas dos jambeiros, estava o significado de toda existência.

Que é:

Que é?

Digo depois. Agora quero reavivar um fato: Quando comentei das minhas andanças e passeios pelas ruas desta urbe esplendorosa e profunda, alguém me perguntou: "E não é perigoso caminhar sozinho pelas ruas desertas a essas desoras?"

E eu respondi: "Viver é perigoso. Se meus passeios acrescentam apenas alguns décimos a mais nos percentuais de riscos previsíveis, eles valem toda pena e toda probabilidade".

No mais, o significado da existência: alcançar a plenitude. O que é plenitude? Felicidade. "Não seria satisfação?" Não, felicidade traz satisfação. Satisfação por si só traz tédio. E mais: felicidade que nasce em nosso interior, independente de qualquer coisa material.

Tendo tudo ou posse de nada. Felicidade por ver uma árvore em flor, ou um canteiro bonito. O cantar de um pássaro, um adulto a sorrir de uma brincadeira de crianças. Ao esperar a hora de seu fuzilamento. Ser feliz doando sangue. Ser feliz depois de levar uma paulada e ser assaltado.

O Nirvana, para alguns. Shibumi, para outros. Mas isso não importa, não estava aqui da primeira vez que escrevi.

Sim... Ser feliz, chorando ao fim de um livro triste. Ser feliz varrendo a casa.

Ou caminhando na calçada vermelha, sob o céu azulino e o sol amarelento das ruas desertas. Sem precisar de nada mais: nem do chão a seus pés, nem do céu acima.



AXB

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Inveja

Hoje eu tenho inveja. Hoje eu tenho inveja da pequena mediocridade diária dos que são ricos e felizes.

Hoje eu tenho inveja do bocejo das vendedoras de perfumes entediadas.

Hoje eu tenho inveja da insana e leve alegria dos festivos doidivanas.

Hoje eu tenho raiva, e inveja, do mundo.

Em minha mudez, minhas reflexões, minha concentração e sapiência, em meu quarto que é meu apartamento, que podia ser o mundo inteiro, eu invejo o que não tenho, pois se tivesse, não me satisfaria. Pelo contrário, me enfadaria.

Invejo o enfado, invejo a estreiteza de mente das gentes, invejo a pieguice, o lugar-comum. Invejo o comum, o ilustre desconhecido, o transeunte.

Invejo caras-e-bocas. Invejo o segurança. Invejo a pança do chefe. Invejo o boné e o pé dolorido do empregado.

Invejo o que não é de se invejar, a tristeza, a solidão que sinto, a companhia dos amigos ausentes.

Invejo a inveja e esse sentimento de ira que faz parecer brotar do peito o próprio inferno, como se ardessem brasas em minha pele e eu vivesse imerso em um caldeirão de óleo fervente.

Invejo, e odeio (ah, como odeio!), a prosa e o verso, e o contra-verso e o reverso. Inverto, imerso, contraverto. É Inveja, tudo inveja.

Invejo o belo rapaz, sua carreira estável, seus dólares e sabe-se lá o que mais. Invejo-o principalmente por sua jovem e bela esposa. E o doirado dos pêlos dela.

Invejo a noite, o silêncio, o sussurrar do vento. E invejo principalmente as palavras, essas malditas palavras, que eu queria saber dizer e não sei.

Invejo minha vida sem mim. Invejo as frases que não disse e as grandes obras que não criei. E invejo esse instante magnífico em que escrevo toda minha inveja, como pecado que é, e, soltanto esso, continuo sentindo-a e inebriando-me com ela.

Invejo sobretudo você, que agora lê o que não escreveu, que come o que não plantou e se enriquece com o que não colheu.

Invejo esta sua felicidade tão aparente enquanto encerra este texto.




AXB