Marina Suzuki é uma estudante de medicina de 27 anos de idade. Pelo menos é isso, entre outras coisas, que sabe sobre si mesma quando ela se recolhe para dormir na noite de 22 de novembro de 2009.
Ela não sabe, mas acordará no dia 23 de novembro de 2029. Como de fato aconteceu. Ergueu-se da cama de solteira, que ela não percebeu agora tratar-se de uma enorme cama queen size. Abriu a torneira da pia do banheiro, que ela mal viu. E só quando ergueu os olhos para o enorme espelho que encimava a pia de mármore, percebeu, com um susto que tomou seu fôlego e quase a matou, que seu rosto envelhecera vinte anos numa só noite.
Ainda atordoada, ela começou a reparar no quarto gigantesco, no enorme closet e as incontáveis roupas belas e, aparentemente, caríssimas; além dos móveis de extremo bom gosto que guarneciam o suntuoso quarto.
Deu um pulo quando a empregada entrou de chofre no aposento, avisou que o café estava pronto e perguntou se ela desejava fazer a refeição ali mesmo. Dorinha, o nome da moça que já trabalhava há cinco anos com a poderosa Dra. Suzuki, estranhou quando a senhora perguntou seu nome e o que fazia ali. “Esse povo que estuda demais e mexe com os miolos dos outros é meio doido".
Só algum tempo depois foi que ela descobriu, pelo jornal em cima do criado-mudo, e por isso se sentiu como num pesadelo, ou num filme de terror de roteiro barato, que duas décadas passaram sem que ela se lembrasse.
O celular, que pelo visto era o seu, era tão sofisticado que ela passou algum tempo até descobrir como atender. Era sua secretária. “Bom dia, Dra. Suzuki. Sua reunião com o Grupo MedSilver é hoje às nove. Há a consulta do Dr. Campos de Medeiros da Medeiros International Holdings às dez.” E saiu passando toda a lista de “seus” compromissos até que, por volta das quatro da tarde, Marina descobriu que teria de participar do ensaio para o casamento de Larissa.
“Larissa Facó? Minha amiga está casando? Com quem?”. E ouviu a seguinte resposta: “Larissa Suzuki Zenault, sua filha. Não está lembrada, Dra.?”.
Esse foi o baque maior. Saber que também tinha outro filho, o mais velho, Aaron, não chegou nem aos pés.
“Uma filha, meu Deus, e está casando! Preciso de ajuda para entender esse... esse pesadelo.”.
Por sorte, achou o telefone de sua amiga “Larissa Facó”.
Foi atendida com uma certa frieza, o que estranhou.
- La, eu preciso de você. - A outra se sobressaltou:
- Co-como? Deve precisar mesmo, porque faz mais de quinze anos que você não me chama assim.
A antiga amiga resumiu sua situação e ouviu a outra mandar à secretária cancelar todos os compromissos do dia.
“Devo estar louca por acreditar nisso” - disse quando chegou.
“La, por favor, me conta o que aconteceu, acho que estou enlouquecendo!”
Diante do tom de voz de Marina, Larissa acreditou.
“Você escolheu ser neurologista, foi perto do fim do curso. Nunca entendi o porquê. Trabalhou muito, ralou bastante e estudava como nunca antes. E olha que você estudava pra caramba. Depois começou a fazer nome a ganhar muito dinheiro. Foi nessa época que nos afastamos.”.
“Nós, o quê?”
“Você começou a ficar muito metida. Nós nos desentendemos e... você não lembra nem disso?”
“Não. Continua.”
“Bom, pelo que eu soube, sua mãe morreu há três anos de câncer. E seu pai está internado numa clínica de repouso, que é um nome muito chique para asilo, ficou completamente esclerosado”.
Marina precisou de um tempo para absorver aquela notícia. Não estava gostando de quem havia se tornado.
“E... meus filhos? Eu tenho dois, você sabia?”
“Sei – disse a antiga amiga sorrindo – você a nomeou em minha homenagem e me pediu para ser madrinha de batismo, junto com o Guilherme.”
“Você se casou com o Guilherme?” - a crise de riso foi tão forte, que ela praticamente esqueceu onde estava.
“É – riu Larissa – lembrando bem...”
“Mas vocês viviam como cão e gato! E hoje?”
“Pois é, o tempo passou, ele se tornou um marido maravilhoso e um ótimo pai.”
“ Você teve filhos?”
“Sim, dois homens”.
“E eu, um casal. - após um momento, o sorriso se apagou de seu rosto – acho que estou louca, não lembro de nada disso. No entanto, meu rosto está aqui para que eu veja a verdade”.
Após um instante de silêncio, perguntou: “Mas... quem é o pai dos meus filhos. E onde está ele?”
“Ah, minha amiga, essa é a resposta mais complicada. Se você só se lembra da noite de 22 de novembro de 2009, então sabe que estava namorando o Alexandre, não?”.
“Sim, o que houve?”.
“Você se casou com ele”.
“Casei?” - E um sorriso enorme nasceu em seu rosto. “E onde ele está?”.
“Vocês se separaram há uns dez anos”.
O sorriso sumiu.
“Por quê?”
“Dentre outras coisas: o seu trabalho. Você estava tão obcecada que esqueceu até das crianças que foram morar com ele após a separação”.
Ela se levantou, caminhou até a varanda e apoiou as mãos no parapeito de granito.
“Meu Deus, eu sou uma pessoa horrível!”
“Bem, os meninos te perdoaram, de qualquer forma. O Alexandre é um pai excepcional e conseguiu desempenhar o papel de mãe também, enquanto você estava fora do país, fazendo mestrado, pós-doutorado, dando palestras, etc.”.
Marina se sentia completamente derrotada. Ainda conseguiu fazer algumas perguntas, mas sob a condição que seria examinada pela amiga.
Antes de Larissa sair, ela perguntou, por fim: “Como foi que Alexandre me pediu em casamento?”
“Ele fechou um clube na beira-mar, acendeu mil velas e enfeitou o lugar todo, cobriu o chão da praia com pétalas de flores e, com um joelho fincado no chão, abriu uma caixa com as alianças mais lindas que você havia visto na vida e perguntou se você queria passar o resto da vida a seu lado. Pelo menos foi assim que você me disse à época.”
“E eu disse sim” - ela sorriu.
“Quem não diria?”.
Mais tarde, no ensaio do casamento, depois de todos os exaustivos compromissos do dia, em que ela aparentemente sabia tudo o que se pode saber sobre sistema nervoso, embora não gostasse muito dessa matéria na faculdade, a filha, que era realmente a sua cara, pulou em seu pescoço. O noivo era um rapaz muito bonito e que parecia ser uma ótima pessoa.
Todos estranharam as lágrimas de alegria e os abraços apertados. Principalmente Aaron, seu filho primogênito.
“A última vez que vi mamãe tão solta assim, eu devia ter uns oito ou nove anos de idade.”
Então o pai da noiva chegou. O bom e velho Alexandre Zenault. Deu um abraço apertado na filha e outro no futuro genro.
“Ele não mudou nada. Continua abraçando as pessoas como se fosse a última vez na vida”.
Depois de cumprimentar a todos, finalmente seus olhos encontraram a figura de Marina. Ele foi caminhando lentamente até ela. Com aquele seu passou lento e estudado, o charme transbordando de seus gestos. Tão elegante quanto da última vez.
Seu cabelo estava todo grisalho, tinha uma ou duas rugas de expressão e um olhar seguro.
Estendeu a mão e disse: “Olá, Marina, como vai?”
Ela se desvencilhou de sua mão e o abraçou. Era o mesmo abraço de vinte anos antes. Para ela parecia realmente que se passaram vinte anos.
Mas ele lembrava daquele abraço. Ele lembrava. No começo estranhou, quis repeli-la. Mas ela estava chorando, soluçando, realmente, em seu peito.
Deu-lhe um nó na gargante. “Tanta coisa acumulada no tempo, sabe?” - ele pensou. E retribuiu com aquele abraço apertado, também em lágrimas.
“Você me perdoa?” - ela perguntou baixinho.
Ele só conseguiu balançar a cabeça.
“Você não casou novamente, não foi?”
“Não”.
Então ela se aninhou em seu peito como se ali fosse o lugar mais seguro do mundo.
“Eu estou dizendo, mamãe está muito estranha...” - disse Aaron para a irmã que chorava de alegria vendo os pais abraçados.
Quando Marina acordou, vinte anos antes, com a cabeça latejando e o mundo rodando a seu redor feito um carrosel; jurou de pés juntos:
“Nunca mais, nunca mais eu bebo conhaque de alcatrão!”.
FIM